1.º Fórum de Investigação no Oceano lança bases para a estratégia do oceano na próxima década

Os laboratórios associados e os cinco principais centros de investigação em ciência do mar em Portugal — CESAM, CCMAR, MARE, CIIMAR e OKEANOS — reuniram na Universidade de Aveiro investigadores, decisores políticos e representantes institucionais de topo, num encontro que contou com a presença da Secretária de Estado da Ciência e Inovação e do Secretário de Estado das Pescas e do Mar, bem como do presidente do IPMA, do contra-almirante e diretor do Instituto Hidrográfico e do secretário-geral do Fórum Oceano, entre outros intervenientes-chave do setor. Resultado de vários meses de trabalho conjunto, o 1.º Fórum de Investigação no Oceano marcou também o lançamento de um documento estratégico orientador para a próxima década, destinado a apoiar a definição de políticas públicas, prioridades científicas e investimento na área do oceano.

O encontro, cuja ideia surgiu há cerca de 18 meses numa missão conjunta em Macau, decorreu num momento particularmente relevante para o sistema científico e tecnológico nacional, num contexto de reestruturação e definição de novas áreas estratégicas, no qual o oceano surge como um domínio central para o futuro de Portugal.

Ao longo das sessões, foi amplamente reconhecido que a ciência desempenhará um papel determinante na construção de uma economia azul sustentável, sendo essencial para compatibilizar objetivos de crescimento económico com a conservação dos ecossistemas marinhos e com a resposta às alterações climáticas. Como foi destacado durante o encontro, é por meio do conhecimento que será possível valorizar o oceano como recurso estratégico do país.

Um documento estratégico para orientar a próxima década

O objetivo central do Fórum foi a elaboração de um documento orientador, resultado de vários meses de colaboração entre os principais centros de investigação nacionais, que se assume como uma base estruturante para a próxima década.

Amadeu Soares, diretor do CESAM, destacou que este documento pretende “ser fundamental, um documento estruturante para a definição das políticas científicas”, não apenas na área do mar, mas também no enquadramento mais amplo do sistema científico nacional, defendendo que a área do oceano deve ser considerada um domínio estratégico para a I&D&I nacionais.

Este processo surge numa fase crítica de reorganização do sistema científico e tecnológico, em que se discutem prioridades, modelos de financiamento e domínios estratégicos, reforçando o papel do oceano como área central para o desenvolvimento do país.

Alinhamento nacional e reforço da colaboração institucional

O Fórum evidenciou um novo nível de articulação entre os principais centros de investigação em ciência do mar, traduzindo um esforço de alinhamento nacional sem precedentes.

Adelino Canário, diretor do CCMAR, sublinhou esse avanço ao referir que “já conseguimos definir uma estratégia comum para o mar”, destacando que esta permitirá reforçar a colaboração entre instituições, não apenas ao nível dos investigadores, mas também ao nível institucional, potenciando a participação de Portugal em programas europeus e projetos internacionais.

Também Pedro Raposo, diretor do MARE, salientou a importância deste momento de convergência, referindo que, pela primeira vez, os principais centros se reuniram para discutir, de forma estruturada, as prioridades de investigação e investimento, reforçando a ambição de afirmar Portugal como uma potência marítima baseada no conhecimento.

Ciência como base da decisão e da política pública

A necessidade de reforçar a ligação entre ciência e decisão política foi um dos temas centrais do encontro.

Helena Canhão destacou que está em curso uma discussão estruturante no âmbito da Agência para a Investigação e Inovação, sublinhando que os contributos científicos “vão ser aproveitados para incorporar decisões, desde a alocação orçamental até à escolha dos domínios estratégicos”.

Neste contexto, foi igualmente sublinhada a importância de decisões baseadas em evidência científica sólida. O contra-almirante Ramalho Marreiros reforçou que não é possível tomar decisões sustentadas sem dados fiáveis, alertando para o facto de o oceano continuar a ser um território ainda pouco conhecido face à crescente pressão antropogénica.

Conhecimento, infraestruturas e resposta aos desafios do oceano

A articulação entre instituições e a integração de competências foram apontadas como essenciais para responder aos desafios complexos associados ao oceano.

José Guerreiro, presidente do IPMA, destacou a necessidade de “articulação entre os principais centros de investigação”, de forma a desenvolver conhecimento estruturado sobre a dinâmica do oceano e melhorar a capacidade de modelação e previsão de fenómenos, nomeadamente no contexto das alterações climáticas, da avaliação de recursos marinhos e da criação de áreas marinhas protegidas.

Foi ainda salientada a importância do investimento contínuo em infraestruturas científicas e na recolha de séries temporais de dados, fundamentais para compreender fenómenos como o aquecimento do Atlântico, a acidificação dos oceanos e os impactos nos ecossistemas marinhos.

Gui Menezes, diretor do OKEANOS, sublinhou o papel estratégico dos Açores neste contexto, destacando a sua vasta área marítima e o elevado potencial científico da região. Referiu ainda a longa tradição de investigação marinha e a existência de infraestruturas únicas, que posicionam o arquipélago como um contributo central para a definição de estratégias futuras no domínio do oceano.

Economia azul, inovação e valorização do conhecimento

A dimensão económica do oceano esteve igualmente presente, com destaque para o papel da ciência na criação de valor e na competitividade do país.

Ruben Eiras, secretário-geral do Fórum Oceano, sublinhou que a articulação entre investigação e inovação é essencial para gerar novas empresas e fortalecer as cadeias de valor associadas ao mar, defendendo que a competitividade empresarial depende de uma base científica sólida.

Também Vítor Vasconcelos, diretor do CIIMAR, destacou o potencial da biotecnologia marinha e da bioeconomia azul, referindo que o oceano constitui um recurso biológico de enorme valor, com aplicações em áreas como a saúde, a indústria e a agricultura, devendo ser explorado de forma sustentável e com capacidade de retenção de talento científico em Portugal.

Um contributo coletivo para a próxima década

O 1.º Fórum de Investigação no Oceano afirmou-se como um momento de convergência entre ciência, política e sociedade, refletindo um esforço coletivo de vários meses de trabalho dos principais centros de investigação nacionais.

Mais do que um encontro, o Fórum materializou-se no lançamento de um documento estratégico orientador que pretende apoiar decisões futuras e estruturar a investigação no oceano na próxima década, consolidando uma visão integrada, colaborativa e baseada em conhecimento para o futuro do mar em Portugal.