A conservação de aves migradoras enfrenta desafios crescentes num contexto de pressão ambiental e alterações globais. Para Afonso Rocha, investigador do CESAM/DBIO, proteger estas espécies implica olhar para todo o seu ciclo anual e para os diferentes territórios que utilizam ao longo das rotas migratórias.
Na entrevista ao Wilder, o investigador explica que muitas estratégias de conservação continuam excessivamente focadas em áreas isoladas, quando, na realidade, as aves migradoras dependem de uma rede de habitats interligados. Zonas de reprodução, locais de paragem durante a migração e áreas de invernada têm de ser geridas de forma articulada, sob pena de comprometer populações inteiras.
O percurso científico de Afonso Rocha está intimamente ligado ao estudo de aves aquáticas e limícolas, com particular enfoque na sua ecologia e fisiologia. O investigador refere que o contacto com sistemas como salinas e zonas húmidas foi determinante para compreender como estas aves lidam com ambientes extremos e como ajustam o seu metabolismo às exigências da migração.
Parte do seu trabalho tem sido desenvolvido em contextos internacionais, como no arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau, onde estudou a adaptação fisiológica e a composição das reservas energéticas de aves antes de iniciarem a migração a partir de áreas tropicais. Estes estudos permitem perceber de que forma fatores ambientais influenciam a capacidade das aves para completar migrações de longa distância.
Segundo o investigador, o declínio observado em várias populações de aves limícolas está associado à perda e degradação de habitats-chave, muitas vezes causada por pressão urbana, intensificação agrícola ou má gestão de zonas estuarinas. Apesar de existirem instrumentos legais de proteção, a sua aplicação no terreno continua a ser um dos principais obstáculos à conservação eficaz.
Afonso Rocha sublinha ainda a importância das novas tecnologias no estudo da migração, nomeadamente o uso de dispositivos de seguimento, que permitem identificar áreas críticas e apoiar decisões de gestão mais informadas. Para o investigador, só uma abordagem integrada, baseada em conhecimento científico sólido e cooperação internacional, permitirá assegurar a conservação das aves migradoras num cenário ambiental em rápida mudança.
Noticia Original em: Wilder.pt, 20 de janeiro de 2026