TSF grava mesa‑redonda no CESAM sobre o futuro da ciência do mar em Portugal

Investigadores, decisores políticos e representantes de instituições ligadas ao oceano reuniram-se na Universidade de Aveiro para discutir os desafios e prioridades da ciência do mar na próxima década, numa mesa-redonda integrada num programa especial da TSF dedicado ao Fórum de Investigação no Oceano – A Ciência do Mar Português na Próxima Década.

O debate contou com a participação de Amadeu Soares, Diretor do CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, Helena Canhão, Secretária de Estado da Ciência e Inovação, José Guerreiro, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Ruben Eiras, secretário-geral do Fórum Oceano, e Ramalho Marreiros, contra-almirante e diretor do Instituto Hidrográfico. A conversa foi moderada pelo jornalista Marco António Ribeiro, da TSF.

Durante a discussão, foram abordadas várias questões centrais para o futuro da investigação marinha em Portugal, incluindo as prioridades científicas para a próxima década, o acesso a infraestruturas de investigação, o financiamento da ciência e a ligação entre o conhecimento científico, as políticas públicas e a economia do mar.

Amadeu Soares destacou a necessidade de garantir melhores condições para a investigação científica no oceano, apontando o acesso a navios de investigação como um dos principais desafios enfrentados pela comunidade científica. Segundo o diretor do CESAM, a recolha de dados a longo prazo é essencial para compreender os sistemas marinhos e responder a desafios como as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a poluição marinha. “O acesso da comunidade científica ao tempo de navio é um dos principais gargalos da investigação oceânica”, afirmou, sublinhando que os custos associados a estas infraestruturas podem limitar a investigação para além da zona costeira.

O Diretor do CESAM salientou ainda que reforçar a investigação científica exige condições estruturais mais sólidas, destacando a necessidade de maior estabilidade dos recursos humanos no sistema científico. Muitos investigadores irão aposentar-se nos próximos cinco a dez anos, sendo o atual ritmo de substituição insuficiente para garantir a continuidade e qualidade da investigação. Neste contexto, defendeu um reforço claro do investimento na investigação do mar, área estratégica para o país.

Amadeu Soares comparou ainda a investigação oceânica à investigação espacial, sublinhando a sua elevada complexidade e custos, o que exige um compromisso financeiro consistente e de longo prazo. Nesse sentido, considerou que o financiamento não deve depender exclusivamente da Secretaria de Estado da Ciência ou do ministério da tutela, devendo envolver também outras áreas governativas, como o Ministério do Mar e o Ministério do Ambiente.

A este propósito, destacou o potencial do Fundo Azul, atualmente sob gestão do Ministério do Ambiente, defendendo que uma parte significativa destes recursos públicos poderia ser mobilizada para apoiar a investigação científica na área do mar. Tal aposta permitiria reforçar a capacidade financeira do sistema científico e consolidar um domínio que é claramente estratégico para Portugal.

A Secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão, referiu que o Governo está atualmente a trabalhar na definição de novos domínios estratégicos da política científica nacional, num processo que envolve a comunidade científica. A responsável destacou, ainda, que a criação da nova Agência para a Investigação e Inovação permitirá reforçar a articulação entre investigação científica e inovação, tendo em vista os grandes desafios da sociedade e uma visão estratégica para as próximas décadas.

Por sua vez, José Guerreiro destacou o papel da observação e monitorização do oceano no desenvolvimento científico e económico do setor marítimo, referindo projetos recentes do IPMA, como o levantamento geológico e geofísico realizado para apoiar o desenvolvimento de energia eólica offshore. O responsável também salientou o potencial da biotecnologia azul e a valorização dos recursos marinhos para diversos setores industriais.

Ruben Eiras sublinhou a importância de reforçar a ligação entre ciência e inovação empresarial no contexto da economia azul, defendendo que Portugal dispõe de conhecimento científico e talento capazes de gerar novas oportunidades de investimento e de desenvolvimento tecnológico.

Ramalho Marreiros destacou a importância de aprofundar o conhecimento sobre o fundo do mar e de reforçar os sistemas de monitorização do oceano, recorrendo a novas tecnologias, sensores e veículos submarinos autónomos. Para o diretor do Instituto Hidrográfico, a recolha de dados científicos de qualidade é fundamental para garantir uma gestão sustentável do espaço marítimo. Ao longo da conversa, os participantes convergiram na necessidade de reforçar a cooperação entre centros de investigação, instituições públicas e setor empresarial para potenciar o papel da ciência no desenvolvimento sustentável das atividades ligadas ao mar. Num país profundamente ligado ao oceano, os intervenientes concordaram que investir em ciência é essencial para compreender melhor os sistemas marinhos e apoiar decisões informadas sobre o futuro do oceano.

Entrevista completa aqui.