No Dia Internacional da Diversidade Biológica, o CESAM assinala a data com um artigo de opinião de João Carvalho, investigador do CESAM/DBIO, sobre o papel da biodiversidade e da funcionalidade dos ecossistemas mediterrânicos. A iniciativa é ainda acompanhada por uma pequena mostra fotográfica com imagens captadas por investigadores do centro nos projetos em que trabalham.
Enquanto Plínio, o Velho, e, mais recentemente, Edward O. Wilson, sugeriam que a natureza se revela na perfeição dos mais pequenos seres, John Terborgh recorda-nos que a nossa visão é frequentemente incompleta por negligenciar as grandes criaturas, incluindo os seus efeitos indiretos no ecossistema. Esta dicotomia reforça a necessidade de considerarmos o sistema como uma rede funcional absoluta, onde a precisão do micro e a magnitude do macro se entrelaçam. É nesta interdependência, neste conjunto de tamanhos, formas, cores e funções, que a biodiversidade e a evolução se afirmam como o maior espetáculo da Terra.
Somos verdadeiros privilegiados por habitarmos a Região Mediterrânica, um hotspot de biodiversidade ‘entre terras’, esculpido não apenas pela força da geologia e pela inclemência do clima, mas também pela mão milenar das nossas atividades. Embora a resiliência da paisagem mediterrânica e dos seres que a habitam seja notável, o impacto da nossa atividade é profundo e convoca-nos a uma responsabilidade redobrada. Conhecer, gerir e proteger a biodiversidade é, no fundo, preservar o equilíbrio funcional desta região.
Para tal, é necessário descodificar como diferentes variáveis e pressões impactam, direta e/ou indiretamente, esta mesma biodiversidade, moldam a funcionalidade dos ecossistemas e afetam a integridade dos seus vários compartimentos, do solo à vegetação. Aqui reside o papel do investigador! Trabalhamos com a imprevisibilidade do ambiente, a interdependência dos compartimentos, a sensibilidade do comportamento animal e, claro, contra a nossa própria ignorância. A nosso favor, jogam o fascínio pelo mundo natural e o poder do método científico, que nos permite melhorar a nossa compreensão do mundo através da exploração contínua de novas ideias e hipóteses.
Sob esta premissa, o projeto rWILD-COA – Desafios e oportunidades ecológicas do processo de renaturalização do Vale do Côa, parte da hipótese de que os grandes herbívoros têm um impacto significativo nos processos funcionais e ecológicos, posicionando-os como protagonistas de uma rede de relações que determina a dinâmica dos ecossistemas mediterrânicos e, por conseguinte, a sua biodiversidade. As gravuras rupestres do Vale do Côa confirmam a presença histórica e a ligação ancestral destes animais ao território. Assumindo a lindíssima reserva da Faia Brava como um verdadeiro laboratório vivo, o projeto tem demonstrado que, enquanto engenheiros do ecossistema, as atividades destas espécies influenciam os processos funcionais do solo e a estrutura da vegetação, contribuindo para um mosaico de habitats que molda a riqueza biológica local, dos pequenos invertebrados aos roedores, répteis e mesocarnívoros. Adicionalmente, os grandes herbívoros desempenham um papel importante na gestão da biomassa, contribuindo para a redução do risco de incêndio e para a resiliência da paisagem.
Alinhado com a linha temática ‘Sistemas Socioecológicos e Recursos’ do CESAM (TL3), este projeto integra conhecimentos dos clusters de Gestão e Conservação de Ecossistemas (RC4) e de Funções do Solo, Agricultura e Florestas (RC2). Ao descodificarmos como as grandes criaturas influenciam e são influenciadas pela diversidade e abundância das mais pequenas, transformamos o conhecimento em estratégias de gestão. Este conhecimento, fundamentado na rede relacional entre os vários níveis do ecossistema, contribui decisivamente para a manutenção ou restauro da funcionalidade das paisagens mediterrânicas.
Notícia por João Carvalho, investigador do CESAM/DBIO.
Fotos por João Carvalho, Lísia Lopes, Pedro Leite, Eduardo Ferreira e UVS-UA.



































