CESAM integra estudo internacional que identifica hibridação entre toirão e furão

Um estudo publicado na Mammalian Biology confirma hibridação entre toirão (Mustela putorius) e furão-doméstico utilizado para a caça (Mustela putorius furo), mediante análise genética, um cenário que poderá comprometer a integridade genética das populações silvestres e um alerta sobre as implicações para a conservação da vida selvagem na Península Ibérica. Este trabalho foi liderado pela Universidad de Cádiz (Espanha) e integra Victor Bandeira, membro do CESAM e do departamento de Biologia da Universidade de Aveiro.

O toirão, um parente silvestre do furão-doméstico, é um pequeno carnívoro amplamente distribuído na Europa, embora as suas populações tenham diminuído em várias regiões devido à perda de habitat, à perseguição humana e a outros fatores antrópicos como as colisões rodoviárias, conduzindo ao estatuto de ameaça de “Em perigo” em Portugal, na mais recente revisão do Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental. A libertação ou fuga de furões-domésticos facilita o contacto com toirões, promovendo cruzamentos que podem passar despercebidos. 

Do ponto de vista evolutivo, a origem ancestral do furão-doméstico continua a ser um tema de debate científico. Alguns autores propõem que descende do toirão-das-estepes (Mustela eversmanii), enquanto outros consideram que a sua forma ancestral silvestre é o próprio toirão. Em todo o caso, atualmente, o furão é tratado comummente como uma subespécie domesticada do toirão, visão adotada neste estudo. Esta relação de parentesco explica porque é que a hibridação é biologicamente possível e porque é que, em muitos casos, os indivíduos híbridos não podem ser facilmente distinguidos apenas pela aparência exterior.

Neste estudo, a equipa de investigação analisou amostras genéticas de toirões que foram atropelados em estradas de diferentes regiões de Espanha, uma vez que esta é uma das principais ameaças para a espécie. Os toirões que ocorrem em ecossistemas agrícolas especializam-se frequentemente na predação de coelhos, que são particularmente abundantes nos taludes das estradas, e, por isso, correm o risco de serem atropelados quando acedem às luras. Por outro lado, os autores recolheram amostras de sangue de furões-domésticos utilizados para caçar coelhos, em várias províncias de Espanha, com a autorização dos detentores. Este procedimento permitiu detetar casos de introgressão genética — ou seja, há troca de material genético entre espécimes domésticos e silvestres — confirmando, assim, a existência de indivíduos híbridos na natureza.

Um dos aspetos mais notáveis deste trabalho é a sua forte componente de ciência cidadã. A obtenção de amostras biológicas de toirões foi possível devido à colaboração de inúmeros voluntários através do projeto “Distribución, Conservación y Ecología del Turón en la Península Ibérica“, bem como à participação de agentes ambientais e funcionários de centros de recuperação de animais selvagens de todo o país. Esta rede colaborativa permitiu a recolha de amostras provenientes de diferentes locais de Espanha, alargando significativamente o âmbito geográfico do estudo e possibilitando uma análise genética a nível espanhol.

Os resultados revelam elevadas taxas de hibridação para ambos os taxa, com 15% dos furões e 35% dos toirões analisados a apresentarem algum grau de hibridação. Assim sendo, alguns espécimes inicialmente classificados como toirões ou furões puros eram, na realidade, híbridos. Além disso, os autores encontraram um espécime híbrido de primeira geração, descendente de uma mãe toirão e de um pai furão, confirmando a remoção ilegal de espécimes selvagens do meio natural para a utilização na criação em cativeiro. Estes resultados confirmam que a hibridação não é apenas um fenómeno histórico, mas também ocorre recorrentemente na atualidade.

Do ponto de vista da conservação, as conclusões deste estudo podem ter importantes consequências. A hibridação pode diluir as adaptações locais do toirão e dificultar a identificação de indivíduos geneticamente “puros”, complicando a gestão populacional e o desenvolvimento de estratégias de conservação. Além disso, a presença de híbridos pode interferir com os programas de monitorização e avaliação do estado da espécie.

“O principal risco não é apenas a existência ocasional de híbridos, mas sim que a hibridação se mantenha ao longo do tempo e possa erodir progressivamente a identidade genética das populações selvagens e a sua capacidade de adaptação”, afirma Tamara Burgos, autora principal do estudo.

O estudo sublinha a necessidade de reforçar os controlos relativos à detenção e libertação de furões, especialmente os que são utilizados para a caça de coelhos, que frequentemente se perdem ou são abandonados na natureza, bem como de incorporar ferramentas genéticas nos programas de monitorização do toirão. Os autores realçam que compreender a verdadeira magnitude da hibridação é essencial para garantir a conservação a longo prazo deste carnívoro pouco conhecido nos ecossistemas ibéricos.

A investigação foi desenvolvida por investigadores da Universidade de Cádiz, da Universidade Rey Juan Carlos, da Universidade Complutense de Madrid, do Museu Nacional de Ciencias de Madrid, em Espanha, e da Universidade de Aveiro, em Portugal, contando ainda com a participação de mais de 80 voluntários no projeto de ciência cidadã.

Referência bibliográfica: Burgos, T., Virgós, E., Carmona, G., Martin-Garcia, S., Hernández-Hérnandez, J., Bandeira, V., Quiles, P., Palacín, C., Martín, C.A., Barrientos, R. and Horreo, J.L. (2026). High rates of hybridization between European polecats and domestic ferrets across the Iberian Peninsula. Mammalian Biology. DOI: https://doi.org/10.1007/s42991-026-00573-8.

@ Fotografia por Guillermo Carmona