A poluição do ar é considerada o maior risco ambiental para a saúde humana, segundo entidades internacionais como a World Health Organization, o United Nations Human Rights Council e a European Environment Agency. Um trabalho de revisão científica da Universidade de Aveiro (UA) analisou de que forma os conceitos de desigualdades ou justiça ambiental têm sido considerados na avaliação dos impactos da poluição atmosférica na saúde.
O trabalho é assinado por Alexandra Monteiro, Vera Rodrigues, Cecília Cardoso, Myriam Lopes, Peter Roebeling, Hélder Relvas, Pedro Seixas, Carla Gama e Ana Isabel Miranda, investigadores do CESAM/DAO; Elisabete Figueiredo, da unidade de investigação Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP); e Sónia Gouveia, Adriano Gomes, Ana Martins, do Instituto de Engenharia Eletrónica e Informática de Aveiro (IEETA). Todos os participantes, são membros do projeto de investigação ALICE, no âmbito do qual foi desenvolvido este trabalho. No seguimento do projeto foi realizada a I Conferência Nacional em Justiça Ambiental.
No total, foram analisados 99 artigos científicos, tendo em conta diferentes aspetos como o enquadramento conceptual, a região estudada, a escala temporal, os dados e indicadores utilizados e os métodos de análise aplicados — estatísticos, numéricos ou baseados em inquéritos.
Os resultados mostram que os estudos sobre justiça ambiental associados à poluição do ar foram realizados em 21 países, sendo os Estados Unidos responsáveis pela maioria das investigações (53 por cento). Seguem-se Canadá (6 por cento) e China (5 por cento).
Em termos temporais, mais de metade dos estudos foram publicados nos últimos cinco anos, refletindo um crescimento recente do interesse científico neste tema. A maioria das investigações analisa impactos de longo prazo da poluição atmosférica.
Relativamente aos dados utilizados, a maior parte dos trabalhos centra-se nas partículas finas PM2.5, um dos poluentes mais associados a riscos para a saúde. No entanto, apenas cerca de metade dos estudos inclui explicitamente dados sobre saúde ou níveis de exposição.
Todos os artigos analisados abordam questões de justiça ambiental relacionadas com estatuto socioeconómico ou raça/etnia. Entre os indicadores socioeconómicos mais utilizados destacam-se os dados de rendimento (99%), seguidos de indicadores de caracterização populacional e de habitação.
O método de análise mais frequente é a análise estatística, utilizada em 71 por cento dos estudos. Cerca de 14 por cento recorrem a inquéritos e 15 por cento utilizam modelos de simulação para explorar cenários.
De acordo com a revisão, ainda existe margem para o desenvolvimento de novos estudos, particularmente na Europa e noutras regiões menos representadas. Os investigadores defendem a utilização de modelos estatísticos mais robustos e métodos mistos, capazes de lidar com a complexidade das múltiplas variáveis envolvidas neste tipo de investigação.
Em escalas geográficas mais pequenas, os autores recomendam também a realização de estudos apoiados por inquéritos, que permitam integrar indicadores socioeconómicos tanto individuais como contextuais. A revisão destaca ainda que poucos estudos abordam perceções sociais ou o envolvimento dos cidadãos nas questões relacionadas com a poluição do ar.
Os resultados apontam, assim, para a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre as dimensões sociais da poluição atmosférica, contribuindo para políticas ambientais e de saúde pública mais equitativas.
Notícia original em: UA Notícias, 5 de maio de 2026