O CESAM entregou recentemente o relatório científico do Estudo de Avaliação de Impactos Ambientais decorrentes da descarga acidental de efluentes no rio Lis, ocorrida no dia 12 de agosto de 2025. O estudo foi desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, coordenada por Nelson Abrantes, investigador do CESAM/DBIO.
O relatório foi apresentado no âmbito da Comissão de Acompanhamento das descargas no rio Lis, constituída por representantes da Secretaria de Estado do Ambiente, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), dos municípios de Leiria e da Marinha Grande, da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL), da associação de regantes, juntas de freguesia e da Águas do Centro Litoral (AdCL), entidade que contratou o estudo.
A investigação integrou dados físico-químicos, microbiológicos, biológicos/ecológicos e ecotoxicológicos, recolhidos em vários pontos a montante e a jusante da estação elevatória onde ocorreu a descarga, permitindo diferenciar os efeitos agudos do incidente da variabilidade natural e das pressões ambientais já presentes.
Segundo o documento do CESAM, a análise integrada indica que o impacto ambiental do incidente foi limitado, localizado e de curta duração, com sinais claros de recuperação nas comunidades aquáticas e na qualidade ecológica do rio Lis, apesar de pressões crónicas já existentes na bacia hidrográfica.
Os resultados físico-químicos e biológicos permitiram enquadrar o troço avaliado do rio Lis num estado ecológico global “Razoável”, em coerência com a classificação histórica atribuída nos Planos de Gestão da Região Hidrográfica RH4. Os grupos biológicos, como os fitobentos e macroinvertebrados, mostraram tendências evolutivas que apontam para uma retoma gradual das condições ecológicas favoráveis no rio.
Também os ensaios ecotoxicológicos com microalgas e invertebrados aquáticos sugerem ausência de efeitos negativos em amostras de água e sedimentos recolhidos a jusante do ponto da descarga acidental relativamente a amostras recolhidas a montante.
No entanto, os resultados obtidos evidenciam de forma clara que o estado ambiental atual do rio Lis é fortemente condicionado por pressões crónicas pré-existentes, de origem difusa e/ou pontual, com expressão variável ao longo do ano e agravamento sazonal evidente no período outonal. Entre estas pressões, destacam-se a contaminação microbiológica persistente, o enriquecimento generalizado em nutrientes (azoto e fósforo) e a ocorrência recorrente de situações de défice de oxigénio dissolvido.
Além de confirmar a evolução positiva após o incidente, o relatório do CESAM inclui também recomendações e um conjunto integrado de medidas de mitigação e requalificação ecológica, como a redução de pressões difusas e pontuais, o reforço da eficiência das infraestruturas de drenagem e elevação, a requalificação hidromorfológica e ecológica do rio e a implementação de um plano de monitorização contínuo.
A AdCL reafirmou ainda o compromisso de executar ações para reforçar a resiliência do sistema, destacando investimentos já realizados, como o novo sistema de desinfeção por ultravioletas e a remodelação da fase sólida da ETAR do Coimbrão, considerados passos importantes para a proteção do ecossistema do Lis.
O relatório do CESAM será utilizado para orientar planos de monitorização contínua, medidas de recuperação ecológica e futuras ações de gestão ambiental, em colaboração com a AdCL e outras entidades envolvidas.