Um novo livro branco, elaborado por 135 investigadores ligados a oito projetos financiados pela União Europeia, apresenta 15 recomendações para travar o declínio dos polinizadores selvagens e salvaguardar a saúde das colónias de abelhas e de outros polinizadores utilizados na apicultura e na produção agrícola. O documento identifica a fragmentação das políticas públicas e das estruturas de governação como um dos principais obstáculos à recuperação destas populações.
Publicado como preprint e com publicação prevista na revista Advances in Pollinator Research, o trabalho reúne contributos dos projetos Butterfly, VALOR, PollinERA, WildPosh, AGRI4POL, ProPollSoil, RestPoll e Safeguard.
Os polinizadores são essenciais para a reprodução das plantas silvestres e cultivadas, para a resiliência dos ecossistemas e para a segurança alimentar. A sua perda pode afetar também cadeias económicas dependentes de plantas com flor, incluindo os setores têxtil, cosmético, farmacêutico e turístico.
Segundo os autores, o declínio resulta da interação entre múltiplas pressões, como as alterações do uso do solo, as práticas agrícolas e florestais insustentáveis, os pesticidas, outros contaminantes, a poluição luminosa e as alterações climáticas. A resposta não deverá, por isso, limitar-se a medidas isoladas de conservação, devendo abranger igualmente os fatores sociais, económicos e políticos subjacentes.
O documento destaca a incoerência entre políticas de agricultura, ambiente, produtos químicos, comércio, planeamento, investigação e educação. Responsabilidades dispersas, fraca coordenação entre administrações e conflitos entre objetivos produtivos de curto prazo e a manutenção da polinização como bem público reduzem a eficácia das medidas adotadas.
Outro eixo central é o reforço da literacia sobre polinizadores, tanto na educação geral como na formação dos profissionais cujas decisões afetam estas espécies. As medidas de conservação tendem frequentemente a privilegiar as flores e as fontes de néctar, ignorando outros requisitos do ciclo de vida. As larvas de traças, borboletas, escaravelhos e moscas podem depender de plantas hospedeiras, matéria orgânica ou presas, enquanto algumas espécies de abelhas necessitam de condições específicas de nidificação.
As 15 recomendações incluem a criação de objetivos mensuráveis nas políticas europeias, o reforço da monitorização, a recuperação e conexão de habitats, incentivos agroambientais de longo prazo, a diversificação das culturas e das misturas de sementes, a redução da dependência de pesticidas e uma avaliação mais integrada dos riscos ambientais. O roteiro defende ainda a articulação entre as políticas climáticas e de biodiversidade e a criação de incentivos financeiros transversais.
Estas prioridades relacionam-se diretamente com investigação já desenvolvida no CESAM, como o projeto POLLINATE, que estudou se a aplicação sustentável de determinados biocarvões ao solo poderia contribuir para recuperar o habitat de polinizadores em pastagens biodiversas semeadas. O projeto integrou conhecimentos de ecologia, química ambiental e engenharia e gestão de ecossistemas.
O novo roteiro europeu proporciona, assim, um enquadramento de política pública para aprofundar a ligação entre saúde dos solos, práticas agrícolas, recuperação de habitats e conservação dos polinizadores.
Documento: van der Sluijs, J. P. et al. (2026). Towards pollinator stewardship in all policies: Policy incoherence in the EU is a major barrier to pollinator restoration. https://doi.org/10.5281/zenodo.20715670