Dia Mundial da Meteorologia: o contributo do CESAM para a previsão e compreensão dos fenómenos atmosféricos

Neste dia 23 de Março comemora-se o Dia Mundial da Meteorologia e este ano a Organização Meteorológica Mundial definiu como tema “Observar hoje, Proteger Amanhã”, de forma a realçar a importância das observações meteorológicas na previsão de eventos extremos e respetiva proteção civil. A qualidade das previsões do tempo dependem muito do chamado “estado inicial da atmosfera”, que consiste nos valores das várias variáveis atmosféricas para primeiro instante da previsão do tempo.

A figura abaixo ilustra a evolução na qualidade e grau de acerto das previsões do tempo nos últimos 40 anos. As observações meteorológicas são das principais responsáveis pelo aumento da fiabilidade das previsões do tempo, pois permitem obter estados iniciais da atmosfera com relativa precisão, traduzindo-se em previsões do tempo com maior fiabilidade.

Ainda no rescaldo dos eventos recentes que trouxeram impactos muito severos para o país (tempestade Kristin, Marta, e o “comboio” de depressões que atingiram o país em Janeiro e Fevereiro), o papel central da meteorologia em prever este tipo de eventos e produzir avisos ás populações e entidades de protecção civil foi mais uma vez crucial. No entanto, houveram várias críticas pelo facto de que algumas previsões meteorológicas não terem previsto com exatidão as intensidades das tempestades, locais mais afetados, etc. Em 1961, o meteorologista Edward Lorenz (MIT) descobriu, pela primeira vez, que a previsão do tempo é impossível de ser realizada com 100% de acerto, devido ao facto de que a atmosfera é um sistema fisico caótico (logo, impossível de prever com 100% de exatidão os seus estados futuros).

A previsão do tempo é uma ciência extremamente complexa, onde equações físicas não-lineares que representam a dinâmica atmosférica são resolvidas de forma aproximada (pois são equações impossíveis de resolver analiticamente) por modelos matemáticos em super-computadores, assimilando centenas de milhões de observações globais no processo. Nas últimas décadas tem-se assistido a uma evolução enorme na qualidade e grau de acerto das previsões do tempo, no entanto, passados quase 65 anos desde a descoberta de Lorenz, nada mudou quanto a este facto: a atmosfera seŕa sempre impossível de ser prevista com 100% de acerto, pelo menos até ao dia em que tenhamos acesso a um conhecimento completo de todos os processos atmosféricos, novas técnicas matemáticas que permitam resolver equações físicas complexas e não-lineares, e capacidade computacional virtualmente infinita de forma a ser possível simular todo o nosso planeta e atmosfera (e respetivas interações) a escalas microscópicas ou até atómicas. Assim, o erro nas previsões do tempo tem que ser encarado como algo natural, e inevitável.

No CESAM, a investigação nesta área enquadra-se na Linha Temática 1 — Alterações Climáticas, Adaptação e Mitigação, que visa compreender os processos climáticos, os impactos das alterações climáticas e a vulnerabilidade e capacidade de adaptação dos sistemas naturais e humanos, promovendo estratégias de mitigação e adaptação sustentadas no conhecimento científico. Esta investigação é desenvolvida de forma integrada através dos diferentes Research Clusters, nomeadamente o RC1 — Mar Profundo, Oceano e Ecossistemas de Transição, que estuda os ecossistemas marinhos e as suas interações com as alterações globais, o RC2 — Funções do Solo, Agricultura e Florestas, que analisa as interações entre clima, território e sistemas terrestres, e o RC3 — Modelação Oceânica e Atmosférica, que se foca na simulação e previsão de processos climáticos e ambientais.

Nos últimos anos, diversos projetos do CESAM têm contribuído para aprofundar o conhecimento científico e apoiar a definição de políticas públicas nesta área. O projeto ClimACT desenvolve o Atlas Climático Futuro de Portugal, produzindo informação científica essencial para apoiar políticas públicas de adaptação às alterações climáticas e gestão de riscos, outro projeto, o FIRESTORM, estuda a influência das condições meteorológicas sobre incêndios extremos, fornecendo conhecimento relevante para a prevenção, a gestão de risco e o apoio à proteção civil e o projeto A-AAGORA desenvolve soluções inovadoras para aumentar a resiliência climática em zonas costeiras, promovendo a integração de conhecimento científico na definição de políticas de adaptação e gestão sustentável.

Notícia por David Carvalho, Investigador do CESAM/DFIS e Coordenador da Linha Temática 1 do CESAM: Alterações Climáticas, Adaptação e Mitigação