Dia Mundial da Terra: O CESAM e a Resiliência Costeira

As Nações Unidas celebram o Dia Mundial da Terra de 2026, sob o tema central “Nosso Poder, Nosso Planeta”, destacando que o progresso ambiental é sustentado pelas ações diárias das comunidades para as quais há o dever de informar e mobilizar a opinião pública sobre a urgência da crise climática.

Passado o primeiro quarto do seculo XXI, o sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC), indica que em consequência à subida da temperatura média global, o nível médio global do mar está a subir mais rapidamente do que no início deste século, tendo como fator dominante a expansão térmica do oceano. Até ao final deste século, dependendo dos cenários de subida média da temperatura global, o nível médio do mar pode também subir para valores situados numa faixa próxima a 0.40 m, ou em alternativa, num cenário menos otimista, numa faixa próxima a 0.90 m. Como consequência, 70% das zonas costeiras a nível global, que já estão expostas a processos de erosão e galgamento de defesas naturais, poderão ver as consequências destes processos agravadas. Particularmente grave é a situação dos países do sul da Europa, nos quais se inclui Portugal, em que os níveis extremos do mar, que tinham num passado recente, de acordo com relatórios do IPCC, períodos de retorno de 100 anos, têm atualmente períodos de retorno inferiores a 10 anos. As zonas costeiras baixas e arenosas são as que mais sofrem as consequências, as quais se evidenciam, após eventos de temporal.

O trabalho desenvolvido no CESAM na componente de estudo dos processos costeiros, em praias arenosas da costa ocidental de Portugal, considerada uma das mais energéticas do mundo, coloca desafios significativos ao nível da aquisição de dados. Os desenvolvimentos tecnológicos atualmente em curso colocam à disposição da investigação equipamentos com maior capacidade de aquisição de dados. A constituição de series observacionais, relativos a conjunto de indicadores costeiros relevantes para o estudo de processos costeiros (e.g. posição da linha de costa, largura da praia, taxas de erosão dunar, galgamento costeiro, batimetria de barras submersas), com elevada cobertura e resolução temporal, começa a ser possível com recurso a métodos indiretos de observação (imagens de câmaras de video), o que está a permitir mudar o paradigma da monitorização costeira de uma realidade de escassez de dados para a nova realidade de abundância de dados. Paralelamente, a atual capacidade computacional permite a aplicação das novas abordagens de inteligência artificial no processamento e análise de resultados, essencial não só para a deteção automática e quantificação de indicadores costeiros, mas também para a sua previsão a curtas escalas temporais (dias/semanas). Esta mudança de paradigma está a começar a mudar o panorama da monitorização costeira em Portugal, perspetivando-se que serviços operacionais de deteção automática, e em tempo real, com capacidade de previsão de indicadores costeiros relevantes para propósitos de gestão em praias arenosas, particularmente sensíveis a processos de erosão, e em zonas portuárias, sejam implementados num futuro muito próximo. Nesse sentido, a investigação realizada no CESAM pode considerar-se pioneira nestes tópicos.

A estação piloto do CESAM na Praia de Mira, estabelecida no âmbito de um protocolo de colaboração celebrado entre a UA e o município de Mira, em 2017, e instalada num dos hot spots de erosão costeira do litoral de Aveiro, é um dos vários protótipos da UA onde estes serviços operacionais começaram a ser testados, pretendendo também contribuir para avaliar a eficácia de medidas implementadas, como a reposição artificial de areia. As estações piloto do CESAM, instaladas nas administrações portuárias da Figueira da Foz, Ericeira e Sines, no âmbito de projetos de investigação, com objetivo de estimativa da batimetria e extração de parâmetros de agitação marítima local e deteção de galgamento de infraestruturas costeiras, são outro exemplo da investigação em curso, que visa a maturação tecnológica, com base em conceitos de ciência fundamental e aplicada, num trabalho realizado por uma equipa interdisciplinar do CESAM. Perspetiva-se que num futuro próximo, replicadores destes protótipos com maior maturidade tecnológica, venham a ser instalados noutros locais do território nacional, num contexto de transferência tecnológica. Pretende-se que o futuro possa passar pelo contributo destas novas ferramentas na formação de uma opinião informada, por parte de decisores, mas também pelo contributo para informar e mobilizar a opinião pública em torno destas temáticas contribuindo para um melhor alinhamento destes tópicos com os objetivos das Nações Unidas.

No CESAM, esta investigação enquadra-se na Linha Temática 1 – Alterações Climáticas, Adaptação e Mitigação, que integra nos objetivos a avaliação da vulnerabilidade dos ecossistemas terrestres às alterações climáticas e o desenvolvimento de estratégias de adaptação e mitigação; e na Linha Temática 3 – Sistemas Socioecológicos e Recursos através da partilha do conhecimento, incluindo os decisores políticos, as comunidades locais e a industria, para co-desenhar soluções para a utilização sustentável dos recursos. Esta investigação é desenvolvida de forma integrada através de vários Research Clusters, nomeadamente, RC 1 – Mar Profundo, Oceano e Ecossistemas de Transição, que inclui nos objetivos o desenvolvimento de tecnologias inovadoras, incluindo deteção remota, modelação numérica, para estudar, monitorizar e prever o comportamento e a evolução de ambientes marinhos e de transição, o RC 3 – -Modelação Oceânica e Atmosférica que inclui nos objetivos avaliar as vulnerabilidades das regiões costeiras às alterações climáticas, e o RC 4 – Gestão e Conservação dos Ecossistemas que integra nos objetivos a implementação estratégias de conservação e restauro, incluindo soluções baseadas na natureza.

Nos últimos anos, diversos projetos do CESAM têm contribuído para aprofundar o conhecimento científico e apoiar a definição de políticas públicas nesta área. O projeto NAVSAFEY que tem como principal fundamento o desenvolvimento de tecnologia que permita a monitorização, de indicadores batimétricos, em tempo quase real, em zonas portuárias com recursos a métodos indiretos de observação; o projeto SHORESAFETY, que tem como objetivo propor uma abordagem integrada baseada em sistemas de video-monitorização para gerar em tempo real modelos topo-batimétricos em praias arenosas e o e o projeto A-AAGORA que desenvolve soluções inovadoras para aumentar a resiliência climática em zonas costeiras, promovendo a integração de conhecimento científico na definição de políticas de adaptação e gestão sustentável.

Figura 1: À escala global, entre 1984 e 2015, a perda permanente de território em áreas costeiras totaliza quase 28.000 km², o que equivale à área do Haiti. Corresponde quase ao dobro da área de terras ganhas (cerca de 14.000 km²) no mesmo período. Fonte: Mentaschi, L., Vousdoukas, M., Pekel, J., Voukouvalas, E., & Feyen, L. (2018). Global long-term observations of coastal erosion and accretion. Scientific Reports, 8https://doi.org/10.1038/s41598-018-30904-w.

Notícia por Paulo Baganha, investigador do CESAM/DGEO

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