Dia Mundial dos Oceanos: ciência do CESAM ao serviço das políticas públicas

No dia 8 de junho, assinala-se o Dia Mundial dos Oceanos. Num ano em que a mensagem internacional convida a reimaginar a relação da sociedade com o oceano, o CESAM — Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro destaca o papel da ciência no apoio a políticas públicas nacionais e internacionais mais informadas, integradas e sustentáveis.

Num contexto marcado pelas alterações climáticas, pela perda de biodiversidade, pela poluição, pela intensificação dos usos do mar, pela pressão crescente sobre zonas costeiras e pela transformação da economia azul, a qualidade das decisões públicas depende cada vez mais de conhecimento científico robusto, dados continuados, capacidade de monitorização e mecanismos eficazes de interface entre ciência, administração pública, sectores produtivos e sociedade.

No CESAM, este contributo materializa-se através da produção de dados, modelos preditivos, indicadores, relatórios técnicos, pareceres, policy briefs, roadmaps, métodos harmonizados, sistemas de monitorização e participação em comités científicos, redes internacionais e grupos de trabalho nacionais e internacionais. Estas atividades apoiam a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas em áreas como governação do oceano, adaptação costeira, conservação da biodiversidade marinha, gestão de áreas protegidas, poluição, recursos genéticos marinhos, mar profundo, aquacultura sustentável, bioeconomia azul, ordenamento do espaço marítimo e resposta a riscos climáticos, ecológicos e geológicos.

Esta visão foi recentemente reforçada pelo 1.º Fórum de Investigação no Oceano — A Ciência do Mar Português na Próxima Década, realizado a 13 de março de 2026 na Universidade de Aveiro, que reuniu os cinco centros de investigação/laboratórios associados com ênfase na área do mar — CESAM, CCMAR, CIIMAR, MARE e OKEANOS. O Fórum resultou na Declaração de Aveiro sobre a Ciência do MarPortuguês 2026-2035, uma visão estratégica consolidada para a próxima década.

A Declaração sublinha que Portugal gere uma Zona Económica Exclusiva de 1,7 milhões de km², com uma plataforma continental estendida proposta superior a 4 milhões de km², dimensão que exige capacidade científica robusta, sustentada e operacional. O documento reconhece a forte massa crítica existente na ciência do mar portuguesa, mas identifica também fragilidades estruturais que limitam a sua capacidade de resposta, incluindo a dependência de financiamento de curto prazo, lacunas de infraestruturas, fragmentação de dados, insuficiência de monitorização de longo prazo e uma interface ciência-política ainda débil.

Entre as prioridades identificadas pelo Fórum estão o reforço de infraestruturas de longo prazo, a estabilização de capital humano científico e técnico, a criação de um programa nacional integrado de monitorização do oceano, o desenvolvimento de sistemas de governança digital e inteligência artificial aplicados ao oceano, e a institucionalização de mecanismos de interface ciência-política-sociedade. Estas prioridades são particularmente relevantes para um país atlântico como Portugal, que necessita de conhecimento científico continuado para cumprir obrigações nacionais e internacionais, proteger ecossistemas, gerir riscos e desenvolver uma economia azulsustentável, inovadora e não extrativa.

A atividade do CESAM enquadra-se diretamente neste desafio. Da escala local à internacional, o centro contribui para transformar investigação em evidência utilizável por decisores, gestores, empresas e comunidades. Este apoio desenvolve-se, entre outros, em projetos e iniciativas de observação oceânica, modelação costeira e estuarina, avaliação do risco de inundação, restauro de zonas húmidas, monitorização da biodiversidade, avaliação de impactes, estudo do oceano profundo, conservação de espécies e habitats, análise de poluentes e contaminantes emergentes, desenvolvimento de soluções para aquacultura sustentável, rastreabilidade, biossegurança e valorização de recursos marinhos.

O contributo do CESAM não substitui a decisão política ou administrativa. Reforça-a com conhecimento validado, métodos robustos, dados comparáveis, cenários, avaliação de riscos e recomendações. Esta função é particularmente importante em áreas onde as decisões exigem integração de várias dimensões — ambiental, económica, social, tecnológica e territorial — e onde a incerteza científica deve ser reduzida sem simplificar a complexidade dos sistemas marinhos e costeiros.

Para Amadeu Soares, Diretor do CESAM, o Dia Mundial dos Oceanos é uma oportunidade para afirmar a responsabilidade das instituições científicas no apoio a políticas públicas baseadas em evidência:

“O Dia Mundial dos Oceanos recorda-nos que proteger e gerir o oceano exige mais do que vontade política: exige conhecimento sólido, monitorização continuada e capacidade científica estável. A Declaração de Aveiro, resultante do 1.º Fórum de Investigação no Oceano, mostra que Portugal tem massa crítica reconhecida internacionalmente, mas precisa de transformar essa excelência num sistema nacional mais integrado, sustentado e orientado para missão. No CESAM, trabalhamos precisamente nessa interface: produzir ciência independente e traduzi-la em modelos, indicadores, relatórios, recomendações e instrumentos úteis para decisores, gestores,sectores produtivos e comunidades. Precisamos de conhecimento, monitorização e cooperação para um oceano observado, protegido e bem governado”

Num momento em que a governação do oceano assume crescente relevância internacional — da implementação do Acordo sobre a Conservação e Utilização Sustentável da Biodiversidade Marinha em Áreas além da Jurisdição Nacional (Acordo BBNJ) à Década do Oceano das Nações Unidas, da proteção da biodiversidade à adaptação climática — o CESAM reforça o seu compromisso com uma ciência que apoia decisões públicas mais informadas, antecipatórias e responsáveis.

Neste Dia Mundial dos Oceanos, a mensagem do CESAM é clara: conhecer melhor o oceano é condição essencial para o proteger, restaurar e gerir de forma sustentável. A ciência não resolve todos os desafios por si só, mas fornece a base indispensável para compreender, antecipar, decidir e agir.

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