Emissões de amónia: um desafio urgente para a qualidade do ar e os ecossistemas

A Agência Europeia do Ambiente publicou, no passado dia 1 de julho, um policy brief com a avaliação do cumprimento dos compromissos nacionais de redução das emissões de poluentes atmosféricos na União Europeia. A mensagem geral é positiva: a maioria dos Estados-Membros está no caminho certo para cumprir as metas de redução de emissões para o período 2020–2029. No entanto, o relatório também deixa um alerta claro: a redução das emissões de amónia continua a ser um dos maiores desafios na Europa.

A amónia é emitida sobretudo pelo setor agrícola, em particular através da gestão de estrumes, da aplicação de fertilizantes e de outras práticas associadas à produção animal e vegetal. Apesar de ser menos conhecida do que outros poluentes, como o dióxido de azoto ou as partículas, a amónia desempenha um papel central na poluição atmosférica. Contribui para a formação de partículas finas secundárias e para a deposição de azoto nos ecossistemas, podendo provocar eutrofização, acidificação dos solos, perda de biodiversidade e alterações no funcionamento dos ecossistemas.

A própria Agência Europeia do Ambiente sublinha que, embora se tenha registado uma tendência geral de redução das emissões dos principais poluentes desde 2005, alcançar os compromissos mais exigentes para 2030 e os anos seguintes exigirá esforços adicionais, especialmente para a amónia, os óxidos de azoto e as partículas finas.

É neste contexto que o projeto europeu “FONDAFOstering Nitrogen Deposition Assessment over Portugal“, financiado pelo programa Horizonte Europa em 1,1 M€, ganha particular relevância. O projeto, coordenado pela Universidade de Aveiro e concluído recentemente a 30 de junho, teve como objetivo reforçar a capacidade científica nacional para avaliar as emissões, o transporte, a transformação e a deposição de compostos reativos de azoto em Portugal. Durante o projeto FONDA, foram desenvolvidas competências em áreas fundamentais para responder a este desafio: modelação da qualidade do ar e da deposição atmosférica, uso de dados de satélite, monitorização da amónia, avaliação de inventários de emissões e adaptação de metodologias às condições mediterrânicas. Estas competências são particularmente importantes porque Portugal ainda apresenta lacunas significativas na monitorização da amónia e na caracterização detalhada das emissões agrícolas.

O relatório da Agência Europeia do Ambiente mostra que cumprir metas de emissão não é apenas uma questão administrativa. Exige dados robustos, modelos fiáveis, capacidade técnica e articulação entre a ciência, a política pública e os setores económicos. No caso da amónia, isto significa conhecer melhor onde, quando e como as emissões ocorrem; melhorar os inventários nacionais; desenvolver redes de monitorização; usar dados de satélite como complemento; e avaliar medidas de mitigação ambientalmente eficazes, mas também viáveis para o setor agrícola.

O FONDA permitiu, precisamente, dar passos importantes nessa direção. A Universidade de Aveiro reforçou a capacidade de aplicar modelos atmosféricos avançados, interpretar dados de observação da Terra e produzir informação científica útil para apoiar decisões nacionais e europeias. Esta capacitação é um dos principais legados do projeto e traduz-se também em resultados concretos: mais de 10 artigos científicos publicados ou em preparação, e mais de 50 jovens investigadores formados nesta área através das Summer Schools organizadas no âmbito do projeto. Adicionalmente, o FONDA permitiu criar uma rede com instituições de referência nas áreas de modelação atmosférica, observação da Terra e deposição de azoto. Ao nível nacional, o workshop com stakeholders aproximou investigadores, autoridades, decisores e entidades ligadas aos setores agrícola e ambiental. Esta rede coloca-nos agora numa posição mais forte para responder ao desafio de continuar a investigação nesta área e de transformar o conhecimento científico em apoio efetivo à decisão.

O fim formal do FONDA, a 30 de junho, não representa, por isso, um ponto final. Um novo projeto europeu acaba de ser aprovado, no qual a Universidade de Aveiro estará presente num grande consórcio internacional, sob a co-coordenação de um dos parceiros do FONDA. Que este seja o primeiro tijolo de uma grande casa de conhecimento científico sobre amónia, deposição de azoto, qualidade do ar e proteção dos ecossistemas.

Notícia por Alexandra Monteiro, investigadora do CESAM/DAO, Coordenadora do projeto FONDA e do Cluster de Investigação 3 -Modelação Oceânica e Atmosférica, em UA Online – 14 julho 2026

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