Estudo na Nature com participação do CESAM revela aumento da poluição por poeiras na Europa

Um estudo publicado na Nature, com coautoria de Célia Alves, investigadora do CESAM/DAO, mostra que as concentrações de poeiras minerais aumentaram na maior parte da Europa entre 2012 e 2021. No sul do continente, as intrusões tornaram-se mais intensas, com consequências potenciais para a qualidade do ar e a saúde pública. A investigadora do CESAM contribuiu com dados sobre a composição elemental das poeiras. Alguns dos aumentos mais acentuados ocorreram em Itália e nas regiões dos mares Adriático e Egeu, reforçando as preocupações quanto aos efeitos na qualidade do ar e na saúde pública.

As poeiras minerais provenientes de regiões desérticas constituem uma componente importante do material particulado atmosférico, nomeadamente das partículas PM₁₀, com diâmetro inferior a 10 micrómetros. A exposição a concentrações elevadas tem sido associada ao agravamento da asma e ao aumento da mortalidade. Até agora, permanecia por determinar se o aumento observado em algumas regiões se estendia ao conjunto do continente europeu e quais os principais fatores responsáveis.

A equipa internacional reuniu cerca de 18 500 medições diárias de alumínio, titânio, silício, cálcio e ferro, obtidas em103 locais rurais e urbanos. Estes dados permitiram desenvolver um modelo de aprendizagem automática para estimar as concentrações diárias de poeiras na Europa entre 2012 e 2021. Célia Alves contribuiu para o estudo com dados observacionais sobre a composição elemental das poeiras.

Os resultados mostram um aumento das concentrações na maior parte da Europa. No sul do continente, foram estimados, em média, cerca de 46 dias de intrusão de poeiras por ano. Em 2021, as poeiras transportadas representavam, por si só, 31% do valor-guia anual da Organização Mundial da Saúde para PM₁₀. Durante estes eventos, os níveis de poeiras foram associados a um aumento de aproximadamente 0,67% da mortalidade diária.

Embora as intrusões de poeiras não se tenham tornado mais frequentes, aumentaram de intensidade em algumas regiões do sul da Europa. A análise de núcleos de gelo dos Alpes revelou também um aumento de cerca de 110% da deposição de poeiras entre o período pré-industrial e a última década analisada. O estudo relaciona o agravamento recente com alterações na circulação atmosférica e a tendência de longo prazo com a crescente aridez e desertificação do Norte de África.

Os autores salientam, contudo, que a cobertura das medições é mais limitada no nordeste da Europa, nos Balcãs e na Escandinávia, justificando o reforço da monitorização de longo prazo nestas regiões.

Os resultados evidenciam como as alterações climáticas, ao favorecerem a degradação dos solos e modificarem os padrões de circulação atmosférica, poderão aumentar a pressão das poeiras minerais sobre a saúde pública e dificultar o cumprimento das metas de qualidade do ar.

Artigo científico: Vasilakos, P. N. et al. (2026). “Rising dust pollution across Europe in a changing climate”. Nature,655, 647–654. https://doi.org/10.1038/s41586-026-10743-w

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