Rios atmosféricos dão uma contribuição importante para a precipitação na Península Ibérica

Os rios atmosféricos — longos corredores de elevada concentração de vapor de água que se deslocam das regiões tropicais para latitudes mais elevadas — têm um peso significativo na chuva registada na Península Ibérica, podendo representar até cerca de 30 por cento da precipitação anual nas regiões do norte. A conclusão resulta de um estudo desenvolvido em parceria com investigadores da Universidade de Aveiro (UA).

O trabalho analisa em detalhe a influência destes sistemas atmosféricos nos padrões de precipitação da região e foi realizado por Diogo Luís, estudante de doutoramento do CESAM/DAO, Carla Gama, investigadora do CESAM/DAO, Cátia Gonçalves e José M. Castanheira, investigador do CESAM e professor do Departamento de Física da Universidade de Aveiro. O estudo contou ainda com a colaboração de investigadores do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, e foi liderado por Irina Gorodetskaya, que iniciou esta linha de investigação em rios atmosféricos na UA e que é atualmente investigadora no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto.

Para compreender melhor o impacto destes sistemas meteorológicos, a equipa analisou 42 anos de dados climáticos, entre 1979 e 2020, recorrendo a reanálises de alta resolução ERA5 do Centro Europeu para Previsão do Tempo a Médio Prazo (ECMWF, na sigla inglesa), a dados E-OBS — base de dados produzida pelo projeto European Climate Assessment & Dataset (ECA&D) — e a dados de estações meteorológicas. No total, foram identificados 580 rios atmosféricos persistentes, ou seja, eventos com duração mínima de 18 horas, o que corresponde a uma média anual de 13,8 episódios a afetar a Península Ibérica.

Os resultados mostram que as zonas costeiras do noroeste da Península Ibérica são frequentemente impactadas por estes corredores de humidade. Entre os anos analisados, 2013 destacou-se como o mais ativo, com o maior número de episódios persistentes registados.

O estudo analisou também a relação entre estes corredores de humidade e os sistemas meteorológicos associados, concluindo que os rios atmosféricos surgem mais frequentemente ligados a frentes frias do que a frentes quentes de depressões extratropicais. Os maiores valores de precipitação causados por este fenómeno foram igualmente observados, com maior frequência, nas proximidades de frentes frias. Para aprofundar esta dinâmica, os investigadores examinaram em detalhe três episódios marcantes: uma tempestade ocorrida em outubro de 1979, a tempestade Gong e a tempestade Ana.

Ao recorrer a dados observacionais e de reanálise de alta resolução, o trabalho reforça a importância dos rios atmosféricos nos padrões de chuva da região. Por outro lado, a associação com sistemas extratropicais indica a necessidade de estudos mais fundamentais sobre a termo-hidrodinâmica da atmosfera, de forma a compreender melhor a génese destes eventos, permitindo alargar o horizonte temporal de previsão da ocorrência de precipitação extrema e antecipar a emissão de alertas.

Notícia original em: UA Notícias, 25 de maio de 2026

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