Tempestade Kristin: um fenómeno comum num clima em mudança?

A tempestade Kristin não foi excecional do ponto de vista da ciclogénese meteorológica, mas ilustra bem como o contexto climático atual está a tornar certos fenómenos mais frequentes, persistentes e impactantes. Não estamos perante algo inédito, mas perante sistemas cada vez mais eficazes a causar danos.

Do ponto de vista técnico, a Kristin resultou de uma ciclogénese fraca a moderada, bem organizada, mas sem cumprir os critérios de ciclogénese explosiva, nomeadamente a queda rápida da pressão central num período de 24 horas. Tratou-se de um sistema pouco profundo, sem desenvolvimento vertical significativo. A questão central não é, portanto, a intensidade absoluta da tempestade, mas a forma como um sistema relativamente comum conseguiu produzir efeitos tão marcados à superfície.

Um dos mecanismos mais estudados no contexto das alterações climáticas é a modificação da Corrente de Jato polar, a corrente de ventos fortes em altitude que separa o ar frio das regiões polares do ar mais quente das latitudes médias. O aquecimento acelerado do Ártico, associado ao degelo dos gelos marinhos, tem vindo a reduzir este gradiente térmico, favorecendo uma Corrente de Jato mais ondulada, mais lenta e, em certos períodos, estacionária. Estas ondulações aumentam a probabilidade de padrões meteorológicos persistirem e de contrastes mais acentuados entre massas de ar. A própria posição do anticiclone dos Açores está interligada a esta dinâmica: quando a circulação em altitude é alterada, o anticiclone tende a deslocar-se para sul ou a enfraquecer, perdendo parte da sua capacidade habitual de desviar as depressões atlânticas. Esta combinação cria um contexto mais favorável à presença prolongada de sistemas de baixa pressão sobre Portugal, aumentando a frequência e a persistência de chuva e vento.

O efeito destas alterações não é a criação de novas tempestades, mas a alteração das condições em que se desenvolvem. Sistemas conhecidos passam a evoluir em ambientes mais favoráveis à amplificação dos seus impactos, seja por durarem mais tempo, seguirem trajetórias menos previsíveis ou interagirem com massas de ar mais contrastadas.

No caso da Kristin, a configuração sinóptica combinou um gradiente de pressão acentuado, uma frente fria ativa e uma circulação atmosférica vigorosa, associada à advecção de ar mais frio em altitude. Essa combinação favoreceu o reforço do vento e da precipitação, sobretudo em sectores específicos da depressão. A maior intensidade do vento ocorreu no sector sul e sudoeste, na proximidade da frente fria e no quadrante dianteiro do centro depressionário, onde o gradiente de pressão era mais apertado. A estrutura pouco profunda do sistema contribuiu para concentrar o vento em zonas particulares, enquanto fatores locais como a topografia e a exposição ao escoamento modularam a intensidade sentida à superfície.

Nada disto é anómalo quando analisado isoladamente. O que muda é a frequência com que estas combinações atmosféricas eficientes ocorrem. Não se pode afirmar que a tempestade Kristin foi causada pelas alterações climáticas. O que se pode afirmar é que o aquecimento global está a alterar a circulação atmosférica de grande escala e a aumentar a probabilidade de fenómenos meteorológicos produzirem impactos mais severos.

As alterações climáticas funcionam como um amplificador. Não criam a tempestade, mas tornam o contexto mais favorável para que sistemas relativamente banais se desenvolvam e provoquem efeitos significativos. O sinal climático é global e de fundo; o fenómeno meteorológico é local e imediato. A eficiência da Kristin foi única e é essa singularidade que, num contexto climático em mudança, se torna cada vez mais relevante.

Alexandra Monteiro, Alfredo Rocha, David Carvalho, Susana Pereira (ordem alfabética)
membros do Research Cluster 3, CESAM

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