Um ano como Diretor do CESAM

Faz hoje um ano que assumi o cargo de Diretor do CESAM, o primeiro Diretor sob o novo modelo de governação. Foi um ano exigente, denso e, por vezes, vertiginoso, mas também estimulante. É, por isso, tempo de parar um pouco e fazer um balanço, não tanto do que eu fiz, mas sobretudo do que nós, em conjunto, conseguimos construir.

Um mandato iniciado com forte confiança coletiva

Antes de olhar para o ano que passou, importa, até para memória futura, recordar o ponto de partida institucional deste mandato.

O ato eleitoral de maio de 2025 deu-me, em situação de candidatura única, que é normalmente de difícil mobilização, 117 votos em 160 votantes, num universo eleitoral de 216 Membros Integrados. O equivalente a 54,2% da totalidade dos Membros Integrados do CESAM. Este resultado deve ser lido com atenção. Nos dados comparáveis disponíveis, representa a maior expressão de apoio explícito a uma liderança individual do CESAM, quer em número absoluto de votos, quer em percentagem relativa ao universo total de Membros Integrados.

A sua relevância torna-se mais clara quando comparada com atos eleitorais anteriores. Em 2021, numa eleição disputada a dois, fui eleito com 98 votos, correspondentes a 41,0% dos 239 Membros Integrados; em 2017, também em eleição disputada a dois, a candidatura vencedora obteve 101 votos, correspondentes a 48,8% dos 207 Membros Integrados. Em candidaturas únicas anteriores, os valores foram outros: 64 votos em 2015, num universo de 208 Membros Integrados, e 35 votos em 2005, num universo de 78 Membros Integrados.

Este dado é significativo não pelo conforto que possa trazer a quem foi eleito, mas pelo sinal de maturidade institucional, mobilização e coesão interna que representa. Pela primeira vez, nos dados recentes disponíveis, uma liderança do CESAM reuniu apoio explícito superior a metade da totalidade dos seus Membros Integrados.

Leio este resultado como um voto de confiança coletivo, exigente e responsabilizador. Como um mandato claro para liderar com ambição, transparência e respeito pela diversidade científica e humana desta comunidade – incluindo os colegas que não votaram, que votaram em branco, que anularam o voto ou cuja posição se exprimiu de outra forma, e cuja confiança continuarei a procurar merecer.

A força do mandato recebido não diminui a exigência; aumenta-a.

Foi com esta consciência, e com o peso institucional desses 54,2%, que procurei conduzir este primeiro ano de mandato.

Um ano de consolidação e afirmação

O balanço que faço deste primeiro ano é positivo, mas prudente. Muitos dos resultados agora visíveis resultam de trabalho preparado anteriormente por toda a comunidade CESAM. O meu papel, enquanto Diretor, coadjuvado pelas quatro vice-diretoras, foi, no âmbito das competências de cada um, procurar consolidar esse esforço, criar condições de continuidade, reforçar a articulação interna e projetar melhor a qualidade científica e do CESAM como um todo.

Iniciámos este mandato com um sinal particularmente relevante: a Fundação para a Ciência e a Tecnologia atribuiu ao CESAM a classificação de Excelente e a pontuação máxima – 15 pontos em 15 possíveis -, nunca anteriormente alcançada pelo CESAM. Este reconhecimento resulta de anos de trabalho coletivo, da preparação cuidada da candidatura, da resposta da comunidade ao painel internacional e do esforço sustentado de todos. Tendo, no ciclo anterior, ocupado o cargo de Coordenador Científico, foi um privilégio conduzir e influenciar esse percurso; mas o resultado é, e será sempre, da comunidade que o tornou possível. Foi sobre essa base sólida que procurámos construir este primeiro ano.

A esse marco somou-se a aprovação de 15 candidaturas na 7.ª edição do CEEC Individual da FCT – 10 Investigadores Auxiliares e 5 Júnior -, com uma taxa de sucesso de 21,9%, claramente acima da média nacional de 14,4%; um número recorde de investigadores CESAM no ranking Stanford/Elsevier World’s Top 2% Scientists; e a presença de vários colegas na lista Clarivate Highly Cited Researchers 2025.

Ao longo deste período, as notícias publicadas pelo CESAM mostram uma comunidade ativa, competitiva e presente em domínios centrais para a investigação ambiental: alterações climáticas, biodiversidade, oceano, zonas costeiras, poluição, saúde ambiental, sustentabilidade, restauro ecológico, literacia científica e apoio à decisão pública.

No plano científico-financeiro, 2025 e o início de 2026 evidenciaram a capacidade do CESAM para captar financiamento competitivo e coordenar investigação nacional e internacional. O balanço divulgado refere 68 projetos iniciados em 2025 e no início de 2026, totalizando mais de 14,29 milhões de euros de financiamento, com forte expressão de coordenações científicas. Estes dados devem ser lidos com prudência temporal, porque não coincidem integralmente com o intervalo estrito entre 15 de maio de 2025 e 15 de maio de 2026; ainda assim, traduzem uma dinâmica institucional clara: a comunidade CESAM continua a competir, coordenar e colaborar ao mais alto nível.

Num contexto de incerteza orçamental, foi também possível mobilizar orçamento próprio para compensar cortes aplicados a projetos aprovados, concretizar duas promoções de investigadores do quadro e iniciar duas cátedras não académicas, associadas à Administração do Porto de Aveiro e à RiaSearch. Estes passos são relevantes porque reforçam a capacidade científica instalada, a ligação a parceiros estratégicos e a sustentabilidade institucional do CESAM.

Particular relevância tem ainda a execução de dois financiamentos PRR destinados a infraestruturas e reequipamento do CESAM: o financiamento plurianual UID/PRR/50017/2025, no valor de 1 833 904,86 €, alinhado com o Plano Estratégico 2025–2029, e o EQUIPAR+2 (UID/PRR2/50017/2025), no valor de 809 967,18 €, totalizando cerca de 2,64 milhões de euros em equipamentos científicos, infraestruturas, software especializado e sistemas de computação. Ambos os financiamentos têm como data-limite de execução o dia 30 de junho de 2026, o que torna estas próximas semanas um desafio operacional diário de grande exigência, mobilizando fortemente os serviços de gestão administrativa e financeira do CESAM, e os de contratação pública da UA. É um esforço que assumimos com o sentido de responsabilidade que estes recursos exigem, e cuja conclusão será um marco estrutural para a capacidade científica instalada do CESAM nos próximos anos.

O ano foi também marcado por ciência com relevância social evidente. As notícias recentes destacaram trabalhos sobre poluição do ar e desigualdades ambientais, contaminantes persistentes em botos, mortalidade de golfinhos associada a capturas acidentais, erosão e resiliência costeira, saúde ambiental, biodiversidade e alterações climáticas. Estes exemplos, entre muitos outros, mostram a capacidade do CESAM para ligar conhecimento fundamental, observação e monitorização ambiental, conservação, inovação e apoio à decisão.

A dimensão oceânica e costeira teve particular visibilidade. O 1.º Fórum de Investigação no Oceano, promovido pelo CESAM em colaboração com outras unidades de investigação, reuniu investigadores, instituições científicas, decisores políticos e representantes do setor do mar para discutir prioridades da ciência do oceano em Portugal. Entre outros, o projeto A-AAGORA, coordenado a partir do CESAM, continuou a projetar internacionalmente o trabalho em restauro costeiro, soluções baseadas na natureza e governação participativa, incluindo a participação nos European Ocean Days 2026 e a realização da A-AAGORA Spring School.

Este foi também um ano de afirmação europeia e global. A presença do CESAM em fóruns científicos e institucionais relevantes, a participação em redes internacionais, as distinções de projetos e a abertura de novos diálogos com parceiros em África, na Ásia, nas Américas e na Europa confirmam uma trajetória de crescente internacionalização. Nesse contexto, lançámos também a iniciativa PIP — programa interno de projetos do CESAM—­, com o objetivo de reforçar colaborações estratégicas internacionais e dar continuidade a compromissos assumidos no programa de ação e na candidatura do CESAM à FCT.

O arranque das comemorações dos 25 anos do CESAM é outro marco importante. Celebrar 25 anos significa reconhecer um percurso sólido nas áreas do ambiente, dos ecossistemas marinhos e da sustentabilidade, mas também preparar o futuro com maior integração, ambição e responsabilidade.

Talvez um dos sinais mais importantes deste primeiro ano tenha sido a confirmação de que o CESAM é, cada vez mais, uma instituição em que a sociedade, as entidades públicas e os parceiros institucionais confiam. Essa confiança expressou-se na diversidade e aumento de prestações de serviços, na participação em estudos de impacto ambiental, em contributos para políticas públicas, em colaborações com entidades nacionais e internacionais, e na presença qualificada nos meios de comunicação social sempre que foi necessária uma voz científica sobre ambiente, oceano, qualidade da água, qualidade do ar, alterações climáticas, biodiversidade e sustentabilidade.

Reforçámos também a comunicação de ciência. A série audiovisual ABSTRACT ajudou a transformar publicações científicas em narrativas curtas, acessíveis e úteis para promover a transdisciplinaridade dentro e fora do CESAM. O ScienceCast, a Reportagem CESAM, a iniciativa Aprender com o CESAM, a participação em eventos públicos de ciência e as ações de literacia científica dirigidas a crianças, jovens, famílias e públicos não especializados contribuíram para aproximar o CESAM da sociedade e para dar maior visibilidade ao trabalho da nossa comunidade.

O ano trouxe ainda distinções individuais e coletivas que honram muito o CESAM e confirmam a projeção nacional e internacional da nossa comunidade científica. Não as elenco aqui de forma exaustiva, pois qualquer lista seria sempre incompleta. Mas quero deixar uma palavra clara de reconhecimento a todas e todos os que, através do seu trabalho, das suas publicações, projetos, prémios, redes e responsabilidades científicas, reforçaram o prestígio do CESAM.

Reconhecimento e próximos passos

Este balanço não é meu. É de todas e todos nós.

É das e dos docentes, das investigadoras e dos investigadores que tornaram possíveis cada artigo, cada projeto, cada candidatura e cada colaboração. É dos estudantes de doutoramento, pós-docs, bolseiras e bolseiros, que são o futuro em construção. É das técnicas e técnicos, gestoras de ciência, equipas administrativas, de comunicação, de contabilidade e de apoio à gestão, sem cujo trabalho discreto e competente tudo se tornaria mais difícil do que já é. E é também de todas as pessoas que assumiram responsabilidades de coordenação científica, liderança de linhas e clusters, participação em redes, comissões, grupos de trabalho e projetos nacionais e internacionais.

O Diretor tem a responsabilidade de criar condições, remover obstáculos e definir prioridades. Mas os resultados nascem do trabalho coletivo, da competência distribuída e da compreensão e confiança entre todos.

O segundo ano será exigente. O sistema científico e tecnológico nacional, em profunda transformação, enfrenta desafios acrescidos no financiamento, na atração e retenção de talento, na resposta às alterações climáticas, na transição para modelos de bioeconomia circular e na consolidação do papel das unidades de investigação e laboratórios associados, no quadro nacional, nas missões europeias e nas políticas públicas. Mas este primeiro ano confirmou que temos no CESAM uma comunidade capaz, criativa, generosa e resiliente. Uma comunidade que faz ciência com rigor e coloca esse conhecimento ao serviço do bem comum.

O CESAM comemora o seu 25.º aniversário com massa crítica, reputação científica e capacidade de resposta a problemas complexos. O próximo passo deve ser transformar essa força em maior integração interna, maior previsibilidade de gestão, maior sustentabilidade financeira e maior projeção internacional.

A todas e a todos, o meu agradecimento pelo compromisso com o CESAM.

Continuemos, juntos, a pugnar por um melhor CESAM, a Cuidar do Futuro.


Amadeu Soares, Diretor do CESAM.

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