Aeroporto do Montijo pode levar à perda de 30% do valor de conservação do estuário do Tejo para as aves que se alimentam nas zonas entremarés

O estuário do Tejo é internacionalmente reconhecido como uma das áreas húmidas mais importantes para aves aquáticas migradoras na rota do Atlântico Este, que se estende desde as áreas frias da tundra europeia até à África do Sul. A sua importância foi reconhecida a nível nacional e internacional, sendo classificada como Reserva Natural, Zona de Proteção Especial (ZPE), Zona Importante para as Aves (IBA) e sítio Ramsar. Em 2020, o governo Português aprovou a construção do novo aeroporto internacional de Lisboa no Montijo, em pleno coração do estuário do Tejo. O intenso tráfego aéreo esperado, com aviões a sobrevoar a baixas altitudes nas aterragens e descolagens, irá sobrepor-se às áreas de alimentação das aves aquáticas, nos bancos de vasa do estuário.

O objetivo deste estudo foi estimar o potencial impacto do novo aeroporto do Montijo sobre as aves aquáticas do estuário do Tejo. Nesse sentido, identificaram-se as áreas de alimentação prioritárias das 10 espécies mais abundantes no estuário durante o inverno através da atribuição de um valor de conservação a cada unidade espacial analisada (quadrículas de 250×250 m abrangendo todo o estuário). Este índice teve por base o número de indivíduos e de espécies que lá ocorrem, ponderando também o seu estatuto de conservação (i.e., dando um pouco mais de peso às espécies com estatuto de conservação mais desfavorável). Posteriormente, fez-se uma análise do custo de substituição (“replacement cost analysis”) em que se excluíram as áreas passíveis de não poderem ser utilizadas pelas aves devido ao intenso ruído do tráfego aéreo. Com base nestes cálculos, comparam-se três cenários distintos: um que representa a situação atual, sem ruído de aviões, e dois cenários “condicionados” em que se considerou que as aves não utilizam as áreas afetadas por níveis de ruído de 55dB e 65dB. A percentagem do valor de conservação perdido nos cenários “condicionados” corresponde à redução na proporção de áreas de alimentação de alta qualidade para aves aquáticas remanescentes na paisagem após remover as áreas afetadas por estes níveis de ruído. Este valor é depois comparado com o de um cenário “não condicionado”, isto é, em que removemos a mesma extensão da área, mas optando por retirar as áreas de alimentação de menor qualidade.

Os resultados deste estudo sugerem que a implementação do novo aeroporto pode resultar numa perda até 30% do valor de conservação do estuário do Tejo, contabilizando apenas a perda de áreas de alimentação. O impacto global poderá ser significativamente maior se adicionalmente se considerarem os efeitos sobre as áreas de refúgio de preia-mar e as populações de aves que utilizam o estuário por curtos períodos durante a migração. Há também a realçar que o estuário do Tejo se inclui numa rede de áreas importantes para aves aquáticas migradoras, por isso os impactos negativos neste local, terão repercussão a nível global e poderão afetar os esforços de conservação implementados noutras zonas húmidas. A conservação das aves aquáticas no estuário do Tejo tem assim relevância a nível internacional.

A equipa deste estudo contou com investigadores do CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), CIBIO/InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos), cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais), Universidade Federal do Pará, Max Planck Institute for Animal Behavior e Birdlife International.

 

Este artigo completo pode ser lido aqui.

 

Estimating the conservation cost of the projected new international Lisbon airport for migratory shorebirds of the Tagus estuary, Portugal

TERESA CATRY, FRANCESCO VENTURA, MARIA P. DIAS, CARLOS D. SANTOS, RICARDO C. MARTINS, JORGE M. PALMEIRIM e JOSÉ P. GRANADEIRO

Bird Conservation International (2021), 1-14. doi:10.1017/S0959270921000125

 

Projeto:

MigraWebs: Migrants as a seasonal ecological force shaping communities and ecosystem functions in temperate and tropical coastal wetlands (Funded by FCT)

 

Para mais informações contactar:

Teresa Catry (teresa.catry@gmail.com)

José Pedro Granadeiro (jpgranadeiro@fc.ul.pt)

 

Mais notícias sobre este e outros artigos científicos da equipa no Twitter: @tidal_wings

Foto:O estuário do Tejo concentra um grande número de aves aquáticas migradoras, sendo reconhecida a sua importância a nível internacional. Créditos: Teresa Catry