O Dia Mundial do Solo, celebrado a 5 de dezembro, lembra anualmente a urgência de proteger um dos recursos mais essenciais e silenciosos do planeta. Instituída pela FAO/ONU, esta data chama a atenção para a vulnerabilidade dos solos face à erosão, desertificação, perda de biodiversidade, contaminação e às alterações climáticas, sublinhando que o solo é um sistema vivo, finito e insubstituível. No CESAM, esta celebração assume particular relevância, refletindo o contributo contínuo e multidisciplinar dos seus clusters de investigação na compreensão, monitorização, conservação e recuperação dos solos. Para assinalar esta data, o CESAM promove um evento científico e educativo dedicado à saúde dos solos, no qual serão apresentados resultados recentes, iniciativas de ligação à sociedade e uma mostra dedicada ao solo enquanto recurso crucial para a vida na Terra.
No âmbito da investigação do CESAM, vários projetos evidenciam como a ciência pode sustentar práticas agrícolas e florestais mais equilibradas, desenvolver soluções de bioeconomia circular, avaliar riscos ambientais e propor estratégias de recuperação de solos fragilizados. Entre estes, destaca-se o projeto BioValChar, no qual se estudou a valorização de biomassa florestal residual em biochar aplicado ao solo, avaliando impactos na atividade microbiana, na ciclagem de carbono e nas propriedades físico-químicas do solo. Os resultados demonstram que doses moderadas de biochar aumentam substancialmente a retenção de água (até 334%) e o carbono sequestrado (até 143%), enquanto aplicações excessivas podem desequilibrar a microbiota do solo e intensificar a respiração (até 783%), evidenciando que soluções circulares só são sustentáveis quando aplicadas com rigor científico e definição de limites seguros.
Também alinhado com a mitigação climática e a gestão sustentável dos solos, o projeto TRUESOIL tem investigado a relação entre práticas agrícolas, dinâmica do carbono e emissões de gases com efeito de estufa em diferentes tipos de solo ao longo de gradientes climáticos. Em pastagens biodiversas enriquecidas com biochar, observou-se uma clara redução das emissões de CO₂ e N₂O, reforço da fixação de carbono em profundidade e ausência de aumento de metano, demonstrando que é possível conciliar produtividade agrícola com estratégias eficazes de sequestro de carbono.
Complementarmente, o projeto SOILSPONGE tem procurado reforçar a capacidade do solo para armazenar água -a sua “função esponja”- através da engenharia de solo com biochar. Estudos experimentais revelam aumentos expressivos de infiltração, teor de água e forte redução da erosão, abrindo caminho à aplicação destas soluções em paisagens mediterrânicas marcadas por secas e fenómenos extremos, onde a desertificação representa um risco crescente.
Na região interior da Península Ibérica, o projeto Soil@INT está a desenvolver um sistema inovador de monitorização da saúde do solo combinando medições de campo, imagens de alta resolução e métodos de aprendizagem automática. Este trabalho permite identificar precocemente sinais de degradação, estabelecer estados de referência e apoiar decisões estratégicas de gestão territorial, contribuindo para reforçar a resiliência ecológica e socioeconómica de regiões vulneráveis.
A ligação entre ciência e sociedade é outro eixo central do CESAM e ficou evidente na atividade “Pintar com Solo”, realizada no âmbito dos projetos europeus CURIOSOIL e TERRASAFE (curiosoil.eu; terrasafe.eu), financiados pela EU Soil Mission. Através da criação de quadros com pigmentos naturais de solo, alunos do 1.º ciclo exploraram de forma sensorial a diferença entre solos saudáveis e solos em risco de desertificação. A experiência demonstrou que metodologias criativas aumentam a literacia do solo entre os mais jovens, fortalecendo a ligação emocional à natureza e incentivando comportamentos responsáveis. As obras produzidas estarão expostas no evento comemorativo de amanhã, simbolizando a articulação entre ciência, educação e comunidade.
A partir de 2026, o CESAM reforçará esta linha de investigação com o projeto LIFT, dedicado a explorar o potencial de fungos de podridão branca como solução natural para recuperar solos degradados por salinização ou contaminação. Resultados preliminares mostram que estes fungos melhoram o crescimento das plantas sob elevada salinidade e conseguem estabilizar solos afetados por resíduos mineiros, reduzindo a presença de elementos tóxicos e promovendo a atividade biológica. Este avanço demonstra o potencial das tecnologias baseadas em fungos para restaurar a saúde dos solos e apoiar sistemas agroalimentares mais resilientes.
Paralelamente, a investigação do CESAM avalia riscos associados a contaminantes agrícolas persistentes, como os fungicidas triazólicos, cuja presença no ambiente pode afetar organismos essenciais ao funcionamento do solo. Estudos recentes mostram que o ciproconazol (CPZ), mesmo em concentrações ambientalmente realistas, altera múltiplos biomarcadores neurofisiológicos, metabólicos e antioxidantes em Eisenia fetida, organismo-chave na estruturação do solo. Estes resultados revelam que compostos de uso agrícola corrente podem comprometer serviços ecossistémicos vitais, sublinhando a necessidade de práticas de gestão cuidadosas e baseadas em evidência científica.
O conjunto destes projetos demonstra que o solo é uma infraestrutura viva indispensável à estabilidade ecológica, ao bem-estar humano e à economia. Proteger este recurso implica compreender os seus limites, restaurar funções comprometidas e garantir condições de uso compatíveis com a biodiversidade, a segurança alimentar e a mitigação das alterações climáticas. Neste Dia Mundial do Solo, o CESAM reafirma o compromisso de gerar conhecimento científico robusto e útil para a sociedade, contribuindo para a regeneração e o uso sustentável deste recurso insubstituível.
Amadeu Soares, Diretor do CESAM, sublinha que «Assinalar o Dia Mundial do Solo é reconhecer a importância vital deste recurso discreto, mas essencial ao equilíbrio ambiental e às atividades humanas. No CESAM, trabalhamos para produzir conhecimento rigoroso que apoie a conservação, monitorização e recuperação dos solos. A ciência oferece as bases necessárias para decisões responsáveis e para uma gestão que respeite os limites deste recurso insubstituível.»